Rewriting Myths
 
     
  Literary Appropriations of Biblical Myths


Cristo recrucificado no "Evangelho segundo Marcos", de Jorge Luis Borges

Delzi Alves Laranjeira

Em uma série de palestras proferidas em Harvard entre 1967 e 1968, Borges afirmou que a força da narrativa evangélica é tamanha, que ele acreditava não ser possível recontá-la de forma melhor do que fizeram os evangelistas. No conto "O evangelho de Marcos", porém, Borges elabora uma releitura peculiar do texto bíblico, apresentando ao leitor não o Jesus dos evangelhos, mas um “pseudônimo de Cristo”, uma categoria literária que Theodore Ziolkowski define como sendo qualquer história na qual o protagonista é percebido como uma figura de Cristo, um arquétipo do redentor que aceita o sofrimento e a morte. Ao longo do conto uma série de referências bíblicas conecta Baltasar Espinosa, o personagem principal, a Jesus: o título do conto, em si, é uma referência explícita aos evangelhos. Espinosa tem 33 anos de idade, é considerado um tipo comum, “como um dos muitos rapazes portenhos, sem outros traços dignos de nota”, é quase um médico – portanto, tem poder para curar pessoas. Além disso, Espinosa possui “a faculdade oratória” e gosta de ensinar. Seu primeiro nome, Baltasar, é uma referência a um dos magos que visitaram Jesus, como narrado no evangelho de Mateus e o segundo nome, Espinosa, remete, etimologicamente, a espinhos e, portanto, permite uma conexão com a coroa de espinhos usada por Jesus no ritual da Paixão. A história se passa nos últimos dias de março, período usual da Quaresma e da Sexta-feira Santa. Além disso, uma incessante chuva ecoa o dilúvio bíblico. Antes de ser morto pelos Gutres, Espinosa passa por um ritual que repete os passos da paixão: pedem sua benção, em seguida, ele é amaldiçoado, escarnecido e, por fim, crucificado. A moça que chora enquanto seus irmãos maltratam Baltazar evoca a presença de Maria, mãe de Jesus, e de outras mulheres como Madalena e Verônica. O que o conto de Borges parece enfatizar é que os ensinamentos religiosos parecem suplantar os valores morais quando são aceitos sem questionamentos e erroneamente assimilados. É o que acontece com os Gutres, que interpretam tortuosa e literalmente o Evangelho de Marcos que Baltasar Espinosa pacientemente lê para a família após o jantar durante o tempo que permanece com eles. As similaridades entre Espinosa e Jesus (ambos têm barba, ambos têm o poder de curar, ambos são pessoas simples que se interessam em ajudar as outras pessoas) constituem o amálgama que funde Baltasar Espinosa e Cristo. E, na perspectiva truncada dos Gutres, Espinosa, como o Cristo dos Evangelhos, deve ser sacrificado para garantir a salvação de todos. Os Gutres são descendentes imigrantes escoceses e nativos, os preceitos do cristianismo não lhes são familiares. “Careciam de fé”, como atesta Espinosa, mas ainda perdurava um resquício de “fanatismo do calvinista” e das “superstições dos pampas”. A história de Jesus narrada no Evangelho de Marcos deixa-os fascinados. Há, nessa passagem, toda uma referência à conversão efetuada pelo homem branco ao índio nativo, deturpada pela desinterpretação da história evangélica pelos Gutres. Devido, talvez, “às superstições dos pampas”, os Gutres parecem não acreditar que o sacrifício de Jesus pela humanidade os inclua. Assim, recriam o seu próprio Cristo e executam o ritual de seu sacrifício. A crucificação de Espinosa, no entender dos Gutres, representa a salvação eterna, premissa que eles procuram garantir com a pergunta que lhe fazem: “E também se salvaram os que lhe cravaram os cravos?” “Sim – replicou Espinosa, cuja teologia era incerta”. Na perspectiva do conto, a religião é vista mais como uma maldição do que uma benção, se seus seguidores adotam uma devoção cega e literal. Baltasar Espinosa descobre esta triste verdade quando, em sua tentativa um tanto ingênua de “educar” os Gutres, acaba por assumir o papel que determina seu trágico e conhecido fim.

V Congresso Brasileiro de Hispanistas. Belo Horizonte: UFMG, 2008.