Rewriting Myths
 
     
 

 


Mil Homeros e mais um: Borges e a literatura grega

Tereza Virginia Ribeiro Barbosa

O título de minha proposta de comunicação deve-se a uma conferência de Borges proferida entre os 1967 e 1968, na Universidade de Harvard, intitulada “A metáfora”, reunida postumamente no volume Esse ofício do verso. No texto, o poeta, prosador e tradutor percorre, desde os gregos até os contemporâneos, metáforas diversas para a noite, o rio, a lua, o homem, a vida, a morte, entre outras, e comenta que, enquanto algumas apresentam apenas modificações sutis, outras registram surpreendentes ousadias. Ao fim e ao cabo, ele postula que metáforas são modelos, razão pela qual elas podem ser reduzidas a um número limitado e, embora haja uma grande variação, essencialmente elas são quase sempre as mesmas. Borges afirma também que há nas metáforas uma precisão mágica que, partindo de um abstrato, acrescenta a ele um concreto e entusiasma a imaginação. Explicando o processo, o poeta comenta a beleza da tradução equivocada do título da famosa obra Mil e uma noites. Segundo ele, as mil noites significam, para a imaginação, uma quantidade de tal modo exagerada que a percebemos como de difícil assimilação. Assim o número mil indica somente uma espécie de “incontabilidade” tal como a que aparece na forma dos chineses chamaremo mundo, a saber, "as dez mil coisas" ou – e isso depende do gosto e da fantasia do tradutor –“os dez mil seres”. Enfim, a expressão mil noites significa um tempo muito longo de manutenção de noites para evitar a morte do narrador (também a Bíblia tem exemplos variados de números simbólicos a apontar para enormidades: o 40, por exemplo, presente nos 40 dias de tentação de Cristo no deserto).

No caso dos mil Homeros do nosso título, temos a permanência privilegiada do aedo grego (cuja existência como indivíduo até hoje é incerta) e dos poemas atribuídos a ele na obra de Borges (de fato, uma quantidade gigantesca de recorrências, muitas das quais ainda nem identificamos). Mas falar de mil Homeros é assustador para um só ensaio; o número seria motivo de desânimo, além de ser abstrato demais para motivar uma audição. Assim, como na referência ao romance famoso, acrescentamos o numeral “um” ao nosso título que, como na fórmula, ganha um alongamento ainda maior, contudo, pela dimensionalidade exata do “um” torna-se mais empolgante, porque prevê a falácia de um fim. Assim, imitando Borges e na certeza de que “qualquer coisa sugerida é bem mais eficaz do que qualquer coisa apregoada”, depois de estudar algumas passagens teóricas e poéticas do escritor argentino, proponho-me a refletir sobre as técnicas mais óbvias de sua escritura (a intertextualidade, a erudição, ficção imiscuída na autenticidade, a valorização do leitor, a multiplicidade ontológica e espacial) e através delas comentar a presença dos gregos representados por seus muitos Homeros, particularmente nas conferências mencionadas e no conto “Tlön, uqbar, orbius tertius”. Das conferências tomaremos todos os pontos sobre a discussão dos poemas, da existência ou não do poeta, de expressões de difícil entendimento, das metáforas etc.; apoiados no conto, revelaremos nossas perplexidades com sugestões e intuições provocadas pelo poeta, sugestões as quais, ainda hoje, são questões árduas na pesquisa de filólogos e arqueólogos acerca de uma das mais abundantes fontes da literatura ocidental. Esse manancial jorra incessantemente à medida que se afasta cronologicamente de nossa realidade, porque há casos em que o tempo, em lugar de degradar um poema, enriquece-o. Segundo tal hipótese, “Homero então seguiria vivendo, e mudaria à medida que as gerações dos homens mudassem”; já que “as palavras são símbolos para memórias partilhadas”, arriscamos uma interpretação do conto referido à luz das escavações de Schliemann no sítio arqueológico de Hissarlik (Anatólia).

V Congresso Brasileiro de Hispanistas. Belo Horizonte: UFMG, 2008.