Monsters and Monstrosities in Literature
 
     
 

Descent on the Monster
La Divina Commedia
Inferno
, Canto 17
Gustave Doré . 1861-68

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Introdução

Monstros corporificam tudo que é perigoso e horrível na experiência humana. Eles nos ajudam a entender e organizar o caos da natureza e o nosso próprio. Nas mais antigas e diversas mitologias, o monstro aparece como símbolo da relação de estranheza entre nós e o mundo que nos cerca. Obras clássicas, dos irmãos Grimm até estudos psicológicos recentes, demonstram a variedade e o poder da criatura má imaginária como uma metáfora cultural e um artifício literário. Para Agostinho "monstro" significava um afastamento pessoal de Deus, e só era aplicado a indivíduos considerados "anormais". A literatura da Renascença descreve pecados específicos (ciúme, orgulho, etc.) como monstruosos. Nesse caso, "monstruosidade" carrega implicações tanto estéticas quanto políticas. Deformidades externas revelam transgressão, pois o indivíduo personifica uma traição da natureza. Modernamente, a criatura de Frankenstein inaugura uma linhagem de monstros que falam do nosso mal-estar perante o desenvolvimento da ciência e o progresso tecnológico, assim como diante de guerras e genocídios.

Neste projeto, o problema a ser enfocado é o porquê introduzir o monstro no espaço ficcional. Para tanto, nosso objeto será levantar os tipos de monstro e suas funções na literatura. Entendemos "monstro" tanto como criaturas engendradas pelo homem quanto os próprios seres humanos, tanto seres mitológicos quanto o espaço em que vivem as personagens. Frankenstein pode ser considerado tão monstruoso quanto a sua criatura, o labirinto tão monstruoso quanto o Minotauro que ele encerra. Da mesma maneira, Hitler, Mao Tsé-tung, Stalin, Pol Pot, Idi Amin e Milosevic, por exemplo, serão considerados monstros morais, ao passo que as cidades, megalópoles ou não, hostis aos moradores serão, aqui, monstros espaciais.

Este projeto baseia-se na hipótese de que é sempre na recusa da visão direta, como afirma Calvino, que parece residir a força da arte como resistência, mas não na recusa da realidade do mundo em que o sujeito está destinado a viver. Sendo assim, não se trata de analisar fugas para o mundo dos sonhos ou trazer à luz um elogio da irracionalidade. Ao contrário, trata-se de avaliar como a mudança de perspectiva, a consideração do mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle podem constituir uma excelente oportunidade para se pensar no papel da literatura.



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